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Capoeira de Angola Há uma grande controvérsia
em torno da Capoeira Angola, o que faz com que este seja um dos mais difíceis,
senão o mais difícil tema para se discutir na capoeira. Muitos capoeiristas ainda
acreditam que a Angola é simplesmente uma capoeira jogada mais lentamente, menos
agressiva e com golpes mais baixos, com maior utilização do apoio das mãos no
chão. Outros explicam que ela contém o que há de essencial da filosofia da capoeira.
Há ainda aqueles que, mais radicais, chegam a afirmar que a Capoeira Angola foi
completamente superada na história dessa arte-luta pelas técnicas mais modernas,
que seriam mais eficientes e adequadas aos tempos atuais, dizendo que é mero saudosismo
querer recuperar as tradições da Angola. Para
que se possa compreender a questão, algumas perguntas devem ser respondidas: A
Angola é um "estilo" de capoeira, da mesma forma que há vários estilos de caratê,
com técnicas bastante distintas entre si? Todo capoeirista deve optar entre ser
um "angoleiro" ou um praticante da Capoeira Regional, criada por Mestre Bimba
por volta de 1930? Seria possível jogar a Capoeira Angola de maneira idêntica
àquela jogada pelos velhos mestres, que tiveram o seu auge no começo deste século?
E, ainda: é possível, nos dias de hoje, traçar uma rigorosa separação entre as
principais escolas da capoeira, Angola e Regional? De
uma maneira geral, a Angola é vista como a capoeira antiga, anterior à criação
da Capoeira Regional. Dessa forma, a distinção Angola/Regional é muitas vezes
entendida como uma separação nestes termos: capoeira "antiga"/capoeira "moderna".
No entanto, a questão não é tão simples assim, uma vez que não houve simplesmente
uma superação da Angola pela Regional. Além disso, defender hoje em dia a prática
da Capoeira Angola não é apenas querer voltar ao passado, mas buscar na capoeira
uma visão de mundo que questionou, desde o princípio, o conceito de eficiência
e diversos padrões da cultura urbano-ocidental. Quando a Regional surgiu, já existia
uma tradição consolidada na capoeira, principalmente nas rodas de rua do Rio de
Janeiro e da Bahia. Depoimentos obtidos junto aos velhos mestres da capoeira da
Bahia lembram nomes importantíssimos na história da luta, como Traíra, Cobrinha
Verde, Onça Preta, Pivô, Nagé, Samuel Preto, Daniel Noronha, Geraldo Chapeleiro,
Totonho de Maré, Juvenal, Canário Pardo, Aberrê, Livino, Antônio Diabo, Bilusca,
Cabelo Bom e outros. São inúmeras as cantigas
que lembram os nomes e as proezas destes capoeiristas, mantendo-os vivos na memória
coletiva da capoeira. Um capoeirista de grande destaque entre os que defendiam
a escola tradicional foi Mestre Waldemar da Liberdade, falecido em 1990. Em
1940, Mestre Waldemar já conduzia a roda de capoeira que viria a ser o mais importante
ponto de encontro dos capoeiristas de Salvador, aos domingos, na Liberdade. Infelizmente,
na sua velhice Mestre Waldemar não teve o reconhecimento que merecia, e não foram
muitos os capoeiristas mais jovens que tiveram a honra de conhecê-lo e ouvi-lo
contar suas histórias. Morreu na pobreza, como outros capoeiristas célebres, como
Mestre Pastinha. Alguns dos frequentadores das famosas rodas de capoeira tradicional
de Salvador ainda dão sua contribuição ao desenvolvimento desta arte-luta, ministrando
cursos, palestras e, em alguns casos, apesar da avançada idade, ensinando capoeira
regularmente em instituições, principalmente em Salvador, e alguns no exterior.
Conforme foi salientado anteriormente, com o aparecimento de Mestre Bimba, iniciou-se
a divisão do universo da capoeira em duas partes, em que uns se voltaram para
a preservação das tradições e outros procuraram desenvolver uma capoeira mais
rápida e direcionada para o combate. Como nos informaram os velhos mestres da
capoeira baiana, a expressão Capoeira Angola ou Capoeira de Angola somente surgiu
após a criação da Regional, com o objetivo de se estabelecer uma designação diferente
entre esta e a capoeira tradicional, já amplamente difundida. Até então não se
fazia necessária a diferenciação, e o jogo se chamava simplesmente capoeira. Sabemos
que o trabalho desenvolvido por Mestre Bimba mudou os rumos da capoeira, no entanto,
muitos foram os capoeiristas que se preocuparam em mostrar que a Angola não precisaria
sofrer modificações técnicas, pois já continha elementos para uma eficaz defesa
pessoal. Após o surgimento da Regional, portanto, iniciou-se uma polarização na
capoeira baiana, opondo angoleiros e discípulos de Mestre Bimba. A cisão ficou
mais intensa a partir da fundação, em 1941, do Centro Esportivo de Capoeira Angola
em Salvador, sob a liderança daquele que é reconhecido como o mais importante
representante desta escola, o Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889-1981).
O escritor Jorge Amado descreveu este capoeirista
como "um mulato pequeno, de assombrosa agilidade, de resistência incomum. (...)
Os adversários sucedem-se, um jovem, outro jovem, mais outro jovem, discípulos
ou colegas de Pastinha, e ele os vence a todos e jamais se cansa, jamais perde
o fôlego" (Jorge Amado, Bahia de Todos os Santos, 1966:209). Talvez pelo fato
de a Capoeira Regional ter se expandido amplamente pelo Brasil, principalmente
como uma modalidade de luta, passou-se a difundir a idéia de que a Angola não
dispunha de recursos para o enfrentamento, afirmando-se ainda que as antigas rodas
de capoeira, anteriores a Mestre Bimba, não apresentavam situações reais de combate.
Porém, os velhos mestres fazem questão de afirmar que estes ocorriam de uma forma
diferente da atual, em que os lutadores se valiam mais da agilidade e da malícia
- ou da "mandinga", como se diz na capoeira - do que da força propriamente dita.
Mestre Pastinha, em seu livro Capoeira Angola, afirma que "sem dúvida, a Capoeira
Angola se assemelha a uma graciosa dança onde a 'ginga' maliciosa mostra a extraordinária
flexibilidade dos capoeiristas. Mas, Capoeira
Angola é, antes de tudo, luta e luta violenta" (Pastinha,1964:28). Sendo uma prática
comum no cotidiano dos anos 30, a capoeira não exigia de seus praticantes nenhuma
indumentária especial. O praticante entrava no jogo calçado e com a roupa do dia-a-dia.
Nas rodas mais tradicionais, aos domingos, alguns dos capoeiristas mais destacados
faziam questão de se apresentar trajando refinados ternos de linho branco, como
era comum até meados deste século. Além disso, é importante observar que tradicionalmente
o ensino da antiga Capoeira Angola ocorria de maneira vivencial, isto é, de forma
espontânea, sem qualquer preocupação metodológica. Os mais novos aprendiam com
os capoeiristas mais experimentados diretamente, com a participação na roda.
Embora já em 1932 tenha sido fundada por Mestre Bimba a primeira academia de capoeira,
o aprendizado informal desta arte-luta nas ruas das cidades brasileiras predominou
até meados da década de 50. Atualmente, a maior parte dos capoeiristas refere-se
à Angola como uma das formas de se jogar a capoeira, não propriamente como um
estilo metodizado de capoeira. Para os não iniciados nesta luta, é importante
lembrar que a velocidade e outras características do jogo da capoeira estão diretamente
relacionados com o tipo de "toque" executado pelo berimbau. Entre vários outros,
existe aquele denominado toque de Angola, que tem a característica de ser lento
e compassado. Dessa forma, "jogar Angola" consiste, na maioria dos casos, em jogar
capoeira ao som do toque de Angola. Este
cenário, no entanto, vem mudando, com a enorme proliferação de escolas de capoeira
Angola, que realizam um sério trabalho de recuperação dos fundamentos dessa modalidade.
Dessa forma, a maior parte das academias e associações de capoeira do Brasil,
ao realizarem suas rodas, têm o hábito de dedicar algum tempo ao jogo de Angola,
que nem sempre corresponde àquilo que os antigos capoeiristas denominavam Capoeira
Angola. Atualmente, o jogo de Angola caracteriza-se
por uma grande utilização das mãos como apoio no chão, e pela execução de golpes
de pouca eficiência combativa, mais baixos e mais lentos, realizados com um maior
efeito estético pela exploração do equilíbrio e da flexibilidade do capoeirista.
De fato, seria tarefa muito difícil reproduzir detalhadamente as movimentações
e os rituais da antiga capoeira, mesmo porque ela, como qualquer instituição cultural,
tem sofrido modificações ao longo de sua história. No entanto, estamos vivendo,
há alguns anos, uma intensa preocupação de recuperação do saber ancestral da capoeira,
através do contato com os velhos mestres. Este fato demonstra uma saudável preocupação
da comunidade da capoeira com a preservação de suas raízes históricas. Afinal,
se recordarmos que a capoeira, como arte-luta que é, engloba um universo muito
mais amplo que simplesmente as técnicas de luta, veremos a quantidade de informações
que podem ser obtidas junto aos antigos capoeiristas, que vivenciaram inúmeras
situações interessantes ao longo de muitos anos de prática e ensino da arte-luta.
Acreditamos que algumas das mais relevantes
características da Angola a serem recuperadas para os dias de hoje são: a continuidade
de jogo, em que os capoeiristas procuram explorar ao máximo a movimentação evitando
interrupções na dinâmica do jogo; a importância das esquivas, fundamentais na
Angola, em que o capoeirista evita ao máximo o bloqueio dos movimentos do adversário,
procurando trabalhar dentro dos golpes, aproveitando-se dos desequilíbrios e falhas
na guarda do outro; a capacidade de improvisação, típica dos angoleiros, que sabiam
que os golpes e outras técnicas treinadas no dia-a-dia são um ponto de partida
para a luta, mas precisam sempre ser moldadas rápida e criativamente à situação
do momento; a valorização do ritual, que contém um enorme universo de informações
sobre o passado de nossa arte-luta e que consiste em um grande patrimônio cultural.
A antiga capoeira marcava-se por um grande respeito aos rituais tradicionais,
diferentemente do que ocorre nos dias de hoje. Atualmente, são raras as academias
que adotam a denominação de Angola ou Regional para a capoeira que é ali praticada.
E, entre as que se identificam como Capoeira Regional, poucas demonstram efetivamente
relação direta com o trabalho desenvolvido por Mestre Bimba. Na verdade, os mestres
e professores de capoeira afirmam jogar e ensinar uma forma mista, que concilia
elementos da Angola tradicional com as inovações introduzidas por Mestre Bimba.
De fato, como afirmamos anteriormente, delimitar a separação entre essas duas
escolas da capoeira é algo muito difícil hoje em dia, e há muitos anos sabe-se
que a tendência é que a capoeira incorpore as características dessas duas escolas.
No entanto, é fundamental que os capoeiristas conheçam a sua história, para que
possam desenvolver sua luta de maneira consciente. A
Capoeira Angola e a Capoeira Regional estão fortemente impregnadas de conteúdo
histórico, e não se excluem. Completam-se e fazem parte de um mesmo universo cultural.
Original: Luiz Renato Vieira - Sociólogo e doutor
em sociologia pela Universidade de Brasília Mestre de capoeira do Grupo Beribazu
e coordena o Centro de Capoeira da UnB (Projeto de Atendimento Comunitário da
Faculdade de Educação Física) |