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UM, DOIS, TRÊS, QUATRO OU CINCO VOLANTES?
Prof. Ms. Fabio Aires da Cunha
É
evidente que o futebol mudou ao longo do tempo. Principalmente
pela evolução da preparação física
a dinâmica das partidas disputadas atualmente é
diferente da dinâmicas das partidas disputadas a trinta,
quarenta ou cinqüenta anos atraz.
Enquanto
se via equipes jogando para frente, buscando o gol a qualquer
custo, observa-se hoje em dia, equipes que valorizam sobremaneira
a posse de bola, muitas vezes o termo "valorizar a posse
de bola" é apenas um pretexto para a cautela em
demasia. Existem treinadores que não buscam o ataque,
não adotam essa filosofia ofensiva e procuram desculpas
mil para justificar o seu jeito de ser, ora a equipe não
têm bons jogadores, ora não tem tempo para treinar
etc. As desculpas mais descabidas são encontradas para
justificar essa filosofia, contrária ao futebol bonito,
que vemos nos dias atuais.
O
Brasil se consagrou no cenário futebolístico mundial,
adotando esquemas ofensivos como o 4-2-4, o 4-3-3 e até
o 4-4-2, mas que utilizava dois ou três jogadores de armação.
O que se vê hoje são esquemas como o 4-4-2, o 3-5-2,
o 4-5-1 etc., que utilizam três, quatro e até cinco
jogadores de marcação, os chamados volantes ou
cabeças-de-área.
Esse
setor do campo consagrou muitos jogadores, como: Ademir da Guia,
Zico, Zizinho, Didi, Rivellino, Gérson, Sócrates,
Raí, só para citar alguns nomes, pois seria impossível
enumerá-los todos aqui. Mas de uns quinze anos para cá
o número de jogadores criativos no meio-de-campo está
cada vez diminuindo mais. Qual seria o motivo para isso?
Ouve-se
que não existem mais jogadores com essas características.
Se perguntarmos a qualquer geneticista, médico ou professor
de biologia, eles responderão que a raça humana
não mudou tanto assim em vinte, trinta ou quarenta anos,
é necessário séculos para mudanças
significativas. Então fica aqui um questionamento, será
que os profissionais que trabalham com o futebol não
estão acabando com as promessas que surgem com a insistente
exigência que se deve marcar em primeiro lugar ou com
a deficiência do trabalho técnico realizado nas
categorias de base?
Sou
da opinião que a melhor defesa sempre será o ataque.
É óbvio, que em algumas situações
devemos nos precaver, mas isso não pode ser adotado como
filosofia de trabalho, uso aqui até uma palavra forte
para definir essa atitude de algumas pessoas ligadas ao futebol
brasileiro - covardia.
Certamente
essas afirmações podem gerar muita polêmica
e discórdia entre as pessoas do futebol. Antes que críticas
sem fundamento aconteçam, citarei um exemplo claro. O
Real Madrid, considerado por muitos o maior time de futebol
do momento. O clube espanhol possui uma defesa que pode ser
considerada até certo ponto fraca, mas com um meio-de-campo
e ataque fantásticos. O Real atua com apenas um volante
e em alguns momentos sem nenhum jogador específico da
posição. Em algumas partidas, o Real pode sofrer
muitos gols, mas em contrapartida, marca muitos gols também.
Além disso, se observarmos o Campeonato Brasileiro de
2003, veremos que várias equipes sofrem muitos gols jogando
com três ou quatro volantes.
Voltando
as desculpas sem embasamento, muitos poderão falar que
o Real Madrid é uma equipe de estrelas, por isso pode
jogar bonito, então relato outro caso, agora da equipe
italiana do Milan, que se dá ao luxo de deixar craques
com Rui Costa e Rivaldo no banco. O problema não é
que eles ficam no banco porque outros craques estão em
seus lugares, simplesmente é um capricho do treinador
que prefere jogadores sem criatividade no meio-de-campo, mas
que marquem. O Milan normalmente, não atua de forma convincente,
como por exemplo, na Liga dos Campeões da UEFA 2003/2004
onde está caminhando a passos bem curtos, quase para
traz, com atuações pífias.
Invariavelmente,
a utilização de muitos jogadores de marcação
no meio-de-campo inibe e até impossibilita o desenvolvimento
de um futebol ofensivo e bem jogado.
Muito
se ouve falar que o futebol é um espetáculo, sendo
assim ele deve ser oferecido aos espectadores como tal. Como
vamos querer que os torcedores voltem aos estádios com
os muitos problemas que existem, jogos em demasia, violência
e outros, inclusive a má qualidade dos jogos, devida
em muitos casos à falta de ousadia de treinadores, que
preferem investir na defesa e não no ataque.
Volto
a enfatizar, o símbolo do futebol brasileiro é
o futebol bem jogado e em busca do ataque.
Se
continuarmos a agir dessa maneira com os nossos jovens atletas,
estaremos agindo contra o nosso futebol. Jogadores como Diego,
Kaká, Alex e Ronaldinho Gaúcho estão rareando,
enquanto tínhamos pelo menos um desses em cada time,
hoje temos, três ou quatro no Brasil todo. A busca por
jogadores talentosos no meio-de-campo deve ser um dos objetivos
principais.
Não
me venham os críticos hipócritas dizer que esse
tipo de atleta não existe mais, eles existem sim, mas
esse futebol covarde de três, quatro, cinco volantes;
de jogadores fortes e altos está inibindo o surgimento
de novas promessas no meio-de-campo, local que é o cérebro
de todas as equipes.
Os
treinadores devem criar alternativas para que os jogadores criativos
possam compor as equipes. O grande defeito do nosso futebol
é a falta de esquemas táticos bem definidos, sempre
dependemos da criatividade e habilidade de nossos craques e
não de nossos esquemas.
Entramos
em outro problema, a falta de aperfeiçoamento e conhecimento
de muitos treinadores. Quando o futebol brasileiro conseguir
unir a parte tática com a habilidade, aí seremos
realmente imbatíveis. A parte mais difícil nós
temos, que é a habilidade dos jogadores, então
porque não podemos desenvolver a parte tática.
Concluindo,
o futebol atual está se tornando muito feio, salvo algumas
equipes, em grande parte por culpa dos profissionais que dirigem
as equipes desde as categorias de base até o profissional.
O desejo incontrolável de ganhar a qualquer custo impede
para muitos o desenvolvimento de um futebol bem jogado, bonito
e ofensivo. O segredo é enfatizar os fundamentos durante
as categorias de base, sem cercear a criatividade dos garotos.
Outubro de 2003
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