1.
INTRODUÇÃO
Partindo da premissa
que para uma educação voltada para a convivência e cooperação
seja realmente concretizada, precisamos observar alguns pontos que caracterizem
este processo.
Para tal, a convivência é
uma condição importante da vida cotidiana, relação
esta que, na medida em que buscamos a melhoria da qualidade interpessoal e intrapessoal,
podemos desenvolver e aperfeiçoar competências na perspectiva de
viver juntos.
Com relação à cooperação,
num primeiro momento temos que identificar o quanto os nossos comportamentos e
atitudes estão condicionados e postos em prática, em situações
que favoreçam uma posição que nos coloquem numa constante
competição, gerando confronto, e em que sejamos vistos como vitoriosos
e considerados os melhores por tal resultado.
Neste
processo ou jogo da vida, precisamos resgatar e valorizar atitudes e comportamentos
mais humanos por meio de uma visão um pouco diferente da que estamos acostumados
a ver quando realizamos esse jogo da vida, de maneira que possamos experimentar
novas alternativas que mostrem que é possível existir outros caminhos
que possam ser incorporados de maneira espontânea e autêntica com
a devida importância de sermos, essencialmente, o que somos e valorizarmos
o que fazemos.
2. PILARES DA EDUCAÇÃO
O conceito da Educação, ao longo de toda
a vida, aparece como uma das chaves de acesso ao século XXI.
A
literatura existente aborda diversos conceitos sobre educação, mas
neste caso, gostaríamos de citar uma educação que se baseia
na função de preparar na autoformação do cidadão.
Segundo Morin (2001), o objetivo da educação não é
o de somente transmitir conhecimentos, mas criar um espírito para toda
vida, onde ensinar é viver em transformações consigo próprio
e com os outros.
Baseando-se nesta citação,
é possível afirmar que um dos fatores que garantem essa educação
é fundamentado em palavras, como cooperação e autonomia.
Partindo dessas palavras, encontramos no dicionário de língua portuguesa
suas definições para podermos entender melhor o seu significado:
COOPERAÇÃO: trabalhar e ajudar para alcançar um objetivo
comum.
AUTONOMIA: faculdade de governar por si só.
Segundo
Orlick (1989, p.105), a cooperação é "uma força
unificadora, que agrupa uma variedade de indivíduos com interesses separados
numa unidade coletiva" e, segundo Freire (1996), autonomia é a prática
da liberdade.
Lendo estas definições objetivas (dicionário)
e citações (autores), acrescentamos que a educação
proposta por meio dos Pilares da Educação tem em sua forma de autonomia
um comando da consciência em que, por meio da cooperação,
podemos criar uma rede de funções com desempenhos relacionados uns
com os outros.
Dessa forma, atuar em educação
é, antes de tudo, uma jornada ao longo de um conjunto de respostas organizadas
em torno dos quatro Pilares da Educação, apontados pelo relatório
da UNESCO (Delours, 1999, p.101-2), no sentido que estes pilares possam transformar-se
em um instrumento que facilite a sua implementação:
Aprender
a conhecer: significa combinar a cultura geral com as possibilidades do aumento
dos saberes num continuo exercício do aprender a aprender para beneficiar-se
das oportunidades oferecidas pela educação ao longo de toda a vida.
Aprender a fazer: a fim de poder agir, não somente
sobre uma qualificação profissional, mais sim ampliando suas competências
no âmbito das diversas experiências sociais ou de trabalho.
Aprender
a viver juntos: participando e cooperando na compreensão do outro e na
percepção das interdependências, realizando projetos e preparando-se
para gerir conflitos e no respeito pelos valores humanos, da compreensão
mútua e da paz.
Aprender a ser: contribuir
para o desenvolvimento mental, corporal e espiritual a fim de atingir uma realização
completa com cada vez maior capacidade de autonomia de cada interser.
Sendo
assim, o saber, o saber fazer, o saber conviver juntos e o saber ser constituem
quatro aspectos, intimamente ligados, de uma realidade de experiência vivida
e assimilada por momentos de compreensão e criação pessoal.
Para tal, a educação deve desenvolver e
formar cidadãos com estas novas competências, que serão necessidades
fundamentais para a convivência entre os outros, partindo da condição
de estar cooperando para uma melhoria da qualidade de vida.
O
JOGO
A discussão a seguir será
sobre o jogo, numa condição de vital importância e relevância
que exerce como forma e processo de aprendizagem. Nesse contexto, hoje, a maioria
dos filósofos, sociólogos, etnólogos, antropólogos
e professores de educação física concordam em compreender
o jogo como uma atividade que contém em si mesmo o objetivo de decifrar
os enigmas da vida e de construir momentos de prazer.
Sendo
assim, Huizinga (1996, p.33) expressa a noção do jogo como:
Uma atividade ou ocupação voluntária,
exercida dentro de certos e determinados limites, dotados de um fim em si mesmos,
acompanhados de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência
de ser diferente da vida cotidiana.
Assim, a alegria
é a finalidade do jogo, em que, quando esta finalidade é atingida,
a estrutura de como se pode jogar assume uma qualidade muito específica;
torna-se uma ferramenta de aprendizagem que mantém uma constância
de forma a dar prazer e de continuar sendo eterno.
Portanto,
podemos verificar que o jogo é muito importante, não só porque
ficamos alegre ou nós dá prazer, mas quando estamos vivendo-o, direta
e reflexivamente, estamos indo além da sua representação
simbólica de vida.
De acordo com Brotto (1999,
p.16), a idéia da aproximação do jogo com a vida numa representação
do reflexo de um sobre outro é: "eu jogo do jeito que vivo e vivo
do jeito que jogo".
Nesse sentido, o jogo passa
a ter a capacidade de desenvolver, por meio dele, formas e contribuições
para gerar talentos, aperfeiçoar potencialidades e criar novas habilidades
de conviver.
Um outro autor a ser destacado é
Friedmann (1996), que, baseando-se nos estudos de Piaget, afirma que o jogo pode
ser utilizado como forma de incentivar o desenvolvimento humano por meio de diferentes
dimensões, que são:
O desenvolvimento
da linguagem: onde a jogo é um canal de comunicação de pensamentos
e sentimentos.
O desenvolvimento moral: é um
processo de construção de regras numa relação de confiança
e respeito.
O desenvolvimento cognitivo: dá
acesso a um maior numero de informações para que, de modo diferente,
possam surgir novas situações.
O desenvolvimento
afetivo: onde facilitem a expressão de seus afetos e suas emoções.
O desenvolvimento físico-motor: explorando o corpo
e o espaço a fim de interagir no seu meio integralmente.
Partindo
dessas dimensões, o jogo passa a ser ensinado em duas formas e atitudes
a serem tomadas:
1. Num jogar espontâneo, onde ele tem apenas o objetivo
de divertimento;
2. Num jogar dirigido, onde ele passa a ser proposto como
fonte de desafios, promovendo o desenvolvimento da aprendizagem.
Sendo
assim, ao utilizarmos o jogo como uma atividade de desenvolvimento humano, permitimos
uma participação dessa forma de aprendizagem, com o compromisso
do buscar pedagógico, transformando e contextualizando-o num exercício
crítico e consciente do aprender.
JOGOS
COOPERATIVOS
Os Jogos Cooperativos surgiram
com a constante valorização dada ao individualismo e a competição
das quais foram condicionadas e aprendidas como única e melhor forma de
caminho existente.
Sendo assim, existem duas definições
que foram mal interpretadas e divulgadas durante várias décadas
que contribuíram para esse caminho:
A primeira
é de Charles Darwin, que fala da seleção natural, em que
as maiorias das pessoas dizem que o melhor está na sobrevivência
do mais forte e mais apto para vencer, afirmando, ainda, que, para a raça
humana, o valor mais alto de sobrevivência está na inteligência,
no senso moral e na cooperação social e não na competição.
Como podemos avaliar, várias pessoas utilizaram
a palavra sobrevivência como forma de promover sempre o melhor capacitado
por meio de uma competição, da qual somente um ganha e não
na forma que deveria ser, ou seja, de compartilhar o papel de cada um numa unidade
inter-relacionada.
A segunda é do francês
Pierre de Coubertin (idealizador da nova era olímpica), que diz que o mais
importante não é vencer, mas tornar parte; importante na vida não
é triunfar, mas esforçar-se; o essencial não é haver
conquistado, mas haver lutado.
O esporte tem sua glorificação
máxima com a chegada da Olimpíada, cujo ideal é unificar
a paz e a união entre todos os povos do mundo. Como sabemos, porém,
a cada ano que passa tornou-se uma mera máquina de tecnologia, em que atletas
são treinados para ganhar a qualquer custo, mas esquecendo o símbolo
que ela representa que é universalizar culturas e raças para gerarem
um momento de confraternização pacífica, direcionando para
a conquista com dignidade e respeito.
Partindo dessas
duas visões descritas, buscamos em Brotto (1997, p.33) algumas definições
sobre competição e cooperação:
COOPERAÇÃO:
é um processo onde os objetivos são comuns e as ações
são benéficas para todos.
COMPETIÇÃO: é
um processo onde os objetivos são comuns, mutuamente exclusivos e as ações
são benéficas somente para alguns.
Neste
sentido, podemos constatar que Cooperação e Competição
são processos distintos, porém, não muito distantes. As fronteiras
entre eles são tênues, permitindo um certo intercâmbio de características,
de maneira que podemos encontrar em algumas ocasiões uma competição
cooperativa e noutras uma cooperação competitiva.
Para Orlick
(1989, p.118),
A principal diferença entre
cooperação e competição é que no primeiro todos
cooperam e ganham, eliminando-se o medo do fracasso e aumentando-se a auto-estima
e a confiança em si mesmo. Ao passo que no segundo, a valorização
e reforço são deixados ao acaso ou concedidos apenas ao vencedor,
o que gera frustração, medo e insegurança.
Sendo
assim, podemos afirmar que cooperação e competição
são direcionadas a partir de agora em comparações entre as
diferenças e atitudes que essas duas palavras podem tomar:
DIFERENÇAS
Cooperação (aprende-se)
A compartilhar, respeitar e integrar diferenças;
A conhecer nossos pontos fracos e fortes;
A ter coragem para assumir riscos;
Sentimentos e emoções com liberdade;
A participar com dedicação;
A ser solidário, criativo e cooperativo;
A ter vontade de estar junto.
Competição
(inicia-se)
Com a
discriminação e a violência;
Com o medo de arriscar e fracassar;
Em fazer por obrigação;
Pela repressão de sentimentos e emoções;
Pelo egoísmo, individualismo e competição excessiva.
Vale salientar que não são todas as
pessoas no mundo que agem dessa maneira. Pelo contrário, trabalham, integrando
a cooperação e a competição. O que acontece é
que na maioria das vezes somos dirigidos a pensar que a maneira de competir corretamente
é aquela que precisamos sempre vencer a qualquer custo. Partindo das diferenças
entre cooperar e competir, veremos a seguir alguns tipos de padrões de
atitudes de percepção/ação que vivenciamos no dia-a-dia:
| Percepção/ação | Omissão (individualismo) | Cooperação (encontro) | Competição (confronto) |
| Visão
do jogo | Insuficiência impossível | Suficiência possível | Escassez, exclusão |
| Objetivo | Ganhar sozinho | Ganhar junto | Ganhar do outro |
| O
outro | Quem? | Amigo | Inimigo |
| Relação | Cada um na sua | Parceria e confiança | Desconfiança e rivalidade |
| Ação | Jogar sozinho Ser jogado | Jogar com Troca e criatividade | Jogar contra Rendimento |
| Clima
do jogo | Monótono | Leve e ativo | Tenso e pesado |
| Resultado | Individualismo | Compartilhamento | Vitória |
| Conseqüência | Alienação e indiferença | Sucesso compartilhado | Acabar logo o jogo |
| Motivação | Isolamento | Amor | Medo |
| Sentimentos | Solidão e opressão | Alegria, satisfação | Insegurança, frustração |
| Símbolo | Muralha | Ponte | Obstáculo |
O
propósito desse quadro é mostrar que toda e qualquer experiência
humana tem diferentes possibilidades para perceber e optar por alternativas que
propiciam viver uma mesma situação. Com esta visão, podemos
despertar e aperfeiçoar o exercício da escolha pessoal, com responsabilidade
e liberdade.
Segundo Orlick (1989), como jogamos na
sociedade em que vivemos, o jogo serve para criar o que é refletido. Muitos
valores importantes e modos de comportamento são aprendidos por meio dessa
experimentação.
Com base nas falas registradas
aqui, os Jogos Cooperativos têm como conceito procurar a ensinar e aprender
a rever nossas experiências e reciclar pensamentos, sentimentos, intenções
e emoções para que reconheçamos e valorizemos nosso próprio
jeito de jogar e respeitar o dos outros, em seus diferentes modos de ser. E mais,
descobrir que jogando com os outros podemos buscar o crescimento do eu dentro
de cada um de nós.
Apresentamos a seguir a
definição do Brotto (1997 ,p.16):
Os
Jogos Cooperativos vêm com a intenção de compartilhar, unir
pessoas, despertar a coragem para correr riscos com pouca preocupação
com o fracasso e sucesso em si mesmo. Eles reforçam a confiança
em si mesmo e nos outros, e todos podem participar autenticamente, onde ganhar
e perder são apenas referências para o contínuo aperfeiçoamento
pessoal e coletivo.
Dentro desta visão, podemos
concluir o raciocínio que os Jogos Cooperativos são uma forma de
integrar os valores humanos e a convivência dos indivíduos no desenvolvimento
de uma aprendizagem, de forma a estar jogando uns com os outros ao invés
de uns contra os outros.
5. CONSIDERAÇÕES
FINAIS
No decorrer deste tema, procuramos evidenciar
uma proposta de educação de ensino e aprendizagem fundamentada nos
Pilares da Educação, em que o jogo possa gerar mudanças nas
formas atuais que estamos jogando e com isso possamos resgatar valores humanos
que ajudem no processo de convivência e construção de uma
verdadeira autonomia de cada ser.
Acreditamos que,
para esta realização, a educação seja um dos caminhos
para se obter um melhor resultado, em que este processo seja permeado de trocas
de convivência e reconhecendo em cada um de nós um estilo de vida,
em que o desenvolvimento da cooperação seja um exercício
para tal.
Dessa forma, devemos relacionar educação
como uma forma de existência de uma melhor qualidade de vida, para que nos
próximos anos de nossa existência na terra, possamos continuar em
busca junto com outros o que pode ser chamado, segundo Carmello (2000), de "resignação",
uma capacidade de estarmos sempre retornando e adaptando para melhor sermos entendidos
nessa direção que vai ao encontro do conviver e de ser autônomo.
A pretensão deste artigo é também
um convite que fazemos para que os profissionais, sem distinção,
façam um caminho, partindo com a vontade de experimentar e acreditar nesta
nova aprendizagem em que nós, educadores, sejamos capazes de transmitir
mais do que somente conhecimentos, aproximando mais o professor, aluno, família,
amigos uns dos outros, formando uma grande corrente que não pese, mas sim,
que nos una cada vez mais.
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
BROTTO,
Fábio Otuzi. Jogos cooperativos: se o importante é competir, o fundamental
é cooperar. Santos: Re-novada, 1997.
BROTTO, Fábio Otuzzi. Jogos
cooperativos: o jogo e o esporte como exercício de convivência. Campinas:
1999. Dissertação (Mestrado) - UNESP.
CARMELLO, Eduardo. O poder
da informação intuitiva: como assimilar informações
com rapidez e criatividade. São Paulo: Ed. Gente, 2000.
DELOURS, Jacques
(coord.). Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para
a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o
século XXI. 4.ed. São Paulo: Cortez; Brasília/DF: MEC, UNESCO,
1999.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à
pratica educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FRIEDMANN, Adriana.
Brincar: crescer e aprender o resgate do jogo infantil. São Paulo: Moderna,
1996.
HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. 4.ed.
São Paulo: Perspectiva, 1996.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita:
repensar a reforma, reformar o pensamento. 4.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
2001.
ORLICK, Terry. Vencendo a competição. São Paulo:
Círculo do Livro, 1989.