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Seg, 26/1/09 13:53

SQUASH

O ESTUDO DAS CAPACIDADES FÍSICAS E A TRANSFERÊNCIA DE ENERGIA NA PRÁTICA DO SQUASH
Autor: Prof. Rafael V. Padua (consultor CDOF)

INTRODUÇÃO
    O Squash (pronuncia-se "squósh", de acordo com suas origens), é um esporte antigo, que surgiu por volta do começo do século XIX.
    O Squash é uma modalidade que se caracteriza por haver "trocas de bola" de altíssima intensidade e de curta duração. O aumento da FC (freqüência cardíaca) no decorrer dos games pode variar entre 94 e 100% da freqüência cardíaca máxima prevista para cada indivíduo. As movimentações dentro da quadra exigem um alto grau de coordenação motora aliado a uma série de deslocamentos em velocidade. Isso faz com que o atleta desenvolva um alto índice de resistência de força e de elevada potência aeróbia.
    O objetivo deste estudo é identificar as capacidades físicas e os sistemas metabólicos envolvidos na prática do Squash. Com base nessas informações, o futuro atleta poderá dispor de um conjunto de informações que possam orienta-lo de uma forma mais correta e com o respaldo científico necessário.
    Apesar de ser uma modalidade antiga e muito popular em países como Inglaterra, Paquistão, Canadá, Austrália entre outros, não existem muitos estudos direcionados à prática dessa modalidade. A falta de publicações científicas contribui para a má formação de nossos atletas que orientados por "profissionais" desatualizados e muitas vezes sem formação acadêmica não conseguem se firmar no cenário mundial.


CAPÍTULO 3. COMPREENDENDO A MODALIDADE
   O Squash (pronuncia-se "squósh", de acordo com suas origens), é um esporte antigo, que surgiu por volta do começo do século XIX.

3.1. Fundamentos e jogadas
Os principais fundamentos do Squash são:
Paralela: rebater a bola para que ela retorne na mesma direção.
Cruzada: rebater a bola com o objetivo de inverter o lado do jogo para deixa-la mais longe do adversário, dificultando a sua rebatida.
Boast: jogada realizada com as paredes laterais em que a bola chega à parede central com menor velocidade, obrigando o jogador a se deslocar e assim evitar o segundo quique da bola no solo.
Lob: a bola faz uma parábola por cima do jogador com o objetivo de obriga-lo a ir ao fundo da quadra.
Voleio: rebater no ar sem deixar a bola tocar no solo. Tem a função de intensificar o jogo e dificultar o posicionamento adversário.
Nick: depois de tocar na parede frontal, a bola acerta no ponto de junção da parede lateral com o solo e não quica mais, impedindo a resposta do adversário.

3.2. Regras
Há necessidade de a bola sempre tocar na parede frontal antes de atingir o solo;
A bola pode quicar somente uma vez no solo depois de bater na parede frontal;
O saque deve ser efetuado acima da segunda demarcação e abaixo da terceira linha da parede frontal;
O árbitro pode instituir o LET quando considerar que o ponto deve ser novamente disputado, ou STROKE, dando o ponto a um jogador por julgar que este foi prejudicado pelo adversário na sua vez de rebater.

3.3. Pontuação
A contagem oficial da World Squash Federation é a 9 pontos com vantagem, só o sacador faz pontos, se o recebedor ganhar a jogada ele obtém a vantagem a o direito de sacar.
Todos os games acabam em 9 pontos, exceto quando há empate em 8 pontos, cabendo ao recebedor determinar se o game acaba em 9 (set one) ou 10 (set two) pontos.
Para torneios amadores, tem se usado à contagem americana que é até 15 pontos sem vantagem. Todos os "rallys" valem pontos. Se houver empate em 14 pontos, o recebedor determina se acaba em 1 (set one) ou 3 (set three) pontos.


CAPÍTULO IV. PERFIL PADRÃO DOS PRATICANTES DE SQUASH
    Segundo a professora Da Silvia et al 1998, no seu artigo "Características de Aptidão Física de Jogadores de Squash", o perfil do jogador de Squash de alto nível do sexo masculino pode ser assim definido:


  

Através desta tabela, podemos concluir que um jogador de Squash de alto nível, necessita de agilidade, força abdominal, baixos índices de gordura corporal, elevada potência aeróbia e força de membros inferiores. Vale a pena considerar que nenhum teste de membros superiores foi realizado para esse grupo de voluntários.

CAPÍTULO V. CARACTERÍSTICAS DA MODALIDADE
    O Squash como modalidade esportiva é classificado como Desporto complexo. Tal classificação deve-se ao fato de exigir de seus praticantes uma grande habilidade coordenativa, além de flexibilidade, resistência anaeróbia e força.
    Para que se possa compreender, planejar e orientar de uma maneira mais eficiente os atletas desta modalidade, primeiramente temos que entender quais são as capacidades físicas envolvidas e os aspectos metabólicos utilizados.
    Sabemos que atualmente existem cinco capacidades físicas básicas. São elas: força, resistência, flexibilidade, coordenação e velocidade. A compreensão e a forma como serão trabalhadas é o segredo para se obter o sucesso dentro da preparação física.

5.1. Capacidades Físicas Básicas

Resistência: Weineck (1990), em seu livro Treinamento Desportivo, definiu resistência como: "Resistência Psíquica" é a capacidade de um atleta de suportar um estímulo no seu limiar por um determinado período e a "Resistência Física" é a tolerância do organismo e de órgãos isolados ao cansaço.

Força: A força como capacidade física se relaciona com a capacidade de superação da resistência externa e de contra-ação a esta resistência, por meio dos esforços musculares (ZAKHAROV,1992).

Velocidade: A velocidade é a medida de quão rápido um atleta pode correr curtas distâncias (DINTIMAN, 1999).

Flexibilidade: Atualmente uma definição padrão entre a maioria dos autores é que flexibilidade pode ser definida como: "amplitude de movimento articular" podendo ser avaliada em cada articulação, ou grupo de articulações (MONTEIRO, 1998).

Coordenação: As capacidades coordenativas (sinônimo "habilidade") são capacidades determinadas sobretudo pelo processo de controle dos movimentos e devem ser regulamentados (Hirtz, 1981). Estas capacidades capacitam o atleta para ações motoras em situações previsíveis e imprevisíveis e para o rápido aprendizado e domínio de movimentos nos esportes.

5.2. Capacidades físicas específicas da modalidade

Mobilidade: Mobilidade pode ser entendida como uma interação entre agilidade e flexibilidade. É a capacidade de um indivíduo cobrir um espaço rapidamente, com um bom senso de coordenação e oportunidade.

Força de resistência: Capacidade de aplicar força em um movimento ou gesto, por diversas repetições sem ocasionar queda de rendimento (fadiga muscular).

Força reativa: É a capacidade para gerar força no salto imediatamente após uma aterrissagem (BOMPA, TUDOR O.).

Força de aceleração: Refere-se a capacidade para conquistar uma alta aceleração. Esta por sua vez, depende da força e da rapidez da contração muscular para levar os braços e pernas até a mais alta freqüência de movimentos.

Força de lançamento: Está relacionada à força aplicada contra um implemento, como a rebatida de uma bola no Squash.

Força de desaceleração: Tem como definição deslocar-se rapidamente e com constantes mudanças de direção. A mudança de direção é súbita e com mínima perda de velocidade.

5.3. Princípio da Especificidade

   Segundo este principio, "as atividades de treinamento para evento específico devem estressar os grupos musculares envolvidos, o sistema energético predominante e o tipo de atividade característica do evento" (NAHAS, 1991).
    A respeito deste princípio, a forma mais eficaz de treinar uma modalidade é praticar os movimentos da própria modalidade. O treinamento de Squash requer a combinação das capacidades físicas mencionadas anteriormente e devem ser treinadas de maneira semelhante a competição.
    O jogo de Squash é considerado um esporte altamente dinâmico, a bolinha atinge grandes velocidades ao longo da partida. Como o objetivo é fazer com que o adversário não consiga rebater a bola, cabe ao jogador utilizar meio técnicos como a finta, efeitos sobre a bolinha, mudanças constantes de direção e velocidade da bolinha, para dificultar ao máximo a jogada do adversário.
    Por haver tantas "variáveis" e situações adversas durante uma partida de Squash, todas as capacidades físicas específicas da modalidade devem ser trabalhadas da melhor maneira possível respeitando os princípios da periodização desportiva.

CAPÍTULO VI. SISTEMAS ENERGÉTICOS NA PRÁTICA DO SQUASH
    A função das vias metabólicas no músculo é principalmente fornecer energia para os exercícios em suas diversas intensidades. A energia para a prática de atividades físicas como o Squash deriva dos processos metabólicos que envolvem a degradação química dos nutrientes energéticos (carboidratos, proteínas e gorduras) para a produção de adenosinatrifosfato (ATP) (BOILEAU,1989).
    Existem dois processos produtores de energia pelo sistema anaeróbio para a elaboração de ATP: O sistema ATP-CP (do fosfagênio) e a glicólise anaeróbia. Anaeróbio significa sem oxigênio e metabolismo refere-se às várias séries de reações químicas que ocorrem dentro do organismo. Assim sendo, metabolismo anaeróbio refere-se a ressíntese de ATP através de reações químicas que não exigem a presença do oxigênio que respiramos (FOX et al., 1991).
    A importância do sistema fosfagênio para o Squash é exemplificada pelos poderosos e rápidos deslocamentos que são realizados em questão de segundos. Sem esse sistema, os movimentos rápidos e vigorosos não poderiam ser realizados, pois essa atividade exige muito mais um fornecimento rápido do que uma grande quantidade de energia ATP.
    Quando a intensidade do exercício é muito elevada, substratos potentes como CP (creatina fosfato) e o glicogênio, são metabolizados anaeróbicamente (via da creatina fosfokinase e da glicólise anaeróbia ou glicolítica).
    O sistema do fosfagênio representa a fonte disponível mais rapidamente do ATP para ser usado pelo músculo. As razões disso são que não dependem de uma longa série de reações químicas, e do transporte do oxigênio que respiramos para os músculos que estão realizando o trabalho e tanto ATP quanto CP estão armazenados diretamente dentro dos mecanismos contráteis dos músculos (MCARDLE et al, 1998).
    A geração energética nos primeiros 15 segundos de trabalho muscular é denominada "fase alática da obtenção anaeróbica de energia", uma vez que não ocorre síntese considerável de ácido lático (lactato) (HECHT, 1972 citado por WEINECK, 1999).
    A glicólise anaeróbia, como sistema de fosfagênio, é extremamente importante para os atletas de Squash, principalmente porque proporciona também um fornecimento relativamente rápido de ATP. Uma troca de bola de longa duração (60 a 120 segundos) depende altamente do sistema do fosfagênio e da glicólise anaeróbica para a formação de ATP.
    A potência máxima do mecanismo anaeróbio - glicolítico de asseguramento energético atinge valores máximos, nunca antes de 30/45 segundos após o início do trabalho com intensidade máxima e se mantêm neste nível durante 2 a 3 minutos (VOLKOV, 1983 citado por ZAKHAROV, 1992).

6.1. A formação do lactato sanguíneo e o papel do Limiar anaeróbio
    Uma das maiores "verdades" da Fisiologia é a idéia de que tanto o lactato quanto a acidose metabólica contribuem diretamente para a fadiga muscular. "As associações entre lactato e fadiga se originaram em estudos de quase um século atrás, quando se descobriu que contrações até a exaustão levam ao acúmulo de lactato e queda no pH. Na ocasião também foi observado que a presença de oxigênio na recuperação era associada a um declínio na quantidade de lactato, aumento nos níveis de glicogênio e restabelecimento da função contrátil" (BROOKS, 2001).
    Entretanto estudos recentes revelaram que, em temperaturas normais, a queda de pH não interfere no funcionamento muscular Westerblad (2002). Pelo contrário, já estão disponíveis fortes evidências opostas ao senso comum, trazendo a hipótese que a acidose pode ser um importante mecanismo protetor contra a fadiga.
    Contrações extenuantes levam a perda de K+ intracelular, com acúmulo extracelular do mineral, de modo que a concentração plasmática de íons de potássio pode chegar a 10 mM, sendo ainda maior nas adjacências do músculo. Em um estudo de Nielsen et al (2001), esta situação foi simulada através da incubação de músculos de ratos a 11mM de K+ e obteve-se redução de 75% na força de músculos de ratos, mostrando-se que o acúmulo de K+ interfere negativamente há função muscular. A adição de 20 mM de lactato, no entanto, levou ao restabelecimento quase total da capacidade contrátil. Além disso, quando se adicionou lactato e K+ simultaneamente, a queda na força induzida pelo K+ foi totalmente prevenida.
    Embora exista controvérsia sobre os mecanismos que controlam a produção de lactato, existe o consenso na literatura que a concentração de lactato no sangue varia muito pouco em relação aos valores de repouso, quando se realizam esforços que correspondem até 50 - 70% do VO2máx. Acima desta intensidade existe um aumento exponencial da concentração de lactato no sangue no músculo (DENADAI, 1995).
    O pico de da concentração de lactato ocorre depois de 1 - 2 minutos em exercícios máximos. A concentração do lactato sanguíneo e muscular é muito similar em exercícios que levam à exaustão em aproximadamente 8 minutos (MONTGOMERY, 1990).
    Na situação de repouso, são produzidos diariamente cerca de 120g de lactato dos quais apenas 1/3 são provenientes dos tecidos de metabolismo virtualmente anaeróbio. Nestas condições a maior parte do lactato circulante é removida pelo fígado (53%). No exercício submáximo de longa duração o músculo esquelético, além de maior produtor passa a ser, também, o maior consumidor de lactato, oxidando 2/3 do lactato produzido, gerando energia para o trabalho muscular (BURINI, 1989).
    A avaliação do sistema anaeróbio alático é possível em exercícios de curta duração (menor que 15 segundos), e concentração do lactato sanguíneo acima de 6 mmol/l pode levar a uma deficiência deste sistema. Em esforços anaeróbicos láticos, altos níveis de lactato sanguíneo e baixo índices de fadiga podem indicar alta potência anaeróbia lática. (SIMÕES et al., 1998).
    Adicionalmente, a taxa de acumulação de lactato no sangue, a qual resulta da relação entre os processos de produção e de remoção do referido metabolismo, é determinada pela combinação de vários fatores, entre os quais o tipo de fibras, a capacidade respiratória muscular, a mobilização de substratos energéticos bem como as características bioquímicas das células musculares esqueléticas (SOARES, 2001).
    Segundo Sousa (2003), os valores médios de lactato sanguíneo e melhor desempenho em corridas de 150 metros observados para os rapazes, evidenciaram uma maior potência anaeróbia lática para homens em relação às mulheres. As mulheres apresentam menor massa muscular, menor atividade de enzimas glicolíticas, e por conseqüência, desempenho e produção de lactato inferiores a indivíduos do sexo masculino.
    A concentração muscular e sanguínea de lactato, é menor em indivíduos treinados, quando comparados aos sedentários, para a mesma intensidade submáxima de exercício (absoluta ou relativa). Entretanto, em esforços que ultrapassam o VO2máx, os indivíduos treinados podem apresentar uma maior concentração de lactato do que os sedentários.
    O limiar anaeróbio (Lan) representa uma intensidade de esforço a partir da qual os níveis de lactato começam a aumentar significativamente, dificultando a continuidade do exercício, e tem sido considerado como intensidade correspondente à concentração fixa de 4 mmol/l de lactato.
    Simões et al.(1998), afirma que o Limiar Anaeróbio é um parâmetro de aptidão aeróbia que vem sendo utilizado extensivamente em clínicas médicas, na prescrição de intensidades de exercícios para o treinamento e em pesquisas na área de fisiologia do exercício. Ultimamente vários protocolos tem sido utilizados para determinação do Limiar Anaeróbio. Alguns utilizam-se de variáveis ventilatórias, enquanto muitos utilizam-se de variáveis metabólicas, especialmente dosagens de lactato sanguíneo.
    Na prática do Squash, onde o gasto calórico é elevado (517 calorias em meia hora de jogo - ACSM), o oxigênio dos músculos é insuficiente para toda a produção energética, e a via anaeróbia é ativada desde o início. Acumula-se então o ácido lático, que leva à fadiga mais ou menos precoce. Por essa razão, os esforços anaeróbios são interrompidos, exigindo intervalos de recuperação para a sua continuidade. Todavia, durante os esforços anaeróbios, o organismo sempre tenta ativar ao máximo a captação e transporte de oxigênio, por mecanismos reflexos e imediatos, para que a via aeróbia em atividade diminua a produção anaeróbia de ácido lático. Por esse mecanismo, ficamos dispnéicos e taquicárdicos após um esforço de alta intensidade (anaeróbio), mesmo quando o exercício é muito curto. "Em esforços anaeróbios mais prolongados, como nas corridas de velocidade por exemplo, a duração maior do esforço permite que os mecanismos de captação e transporte de oxigênio sejam ativados plenamente, podendo ser atingido o VO2máx do indivíduo." (SANTARÉM, 2005).
    Tendo em vista que o sistema aeróbio é importante para a recuperação entre séries de exercícios anaeróbios, sugere-se que o treinamento aeróbio anteceda o treinamento anaeróbio lático, e que se faça uma manutenção da capacidade aeróbia durante um período de treinamento do tipo anaeróbio lático (SIMÕES, et al., 1998).
    Em seu artigo, Gibson, et al. (1999), estudou o consumo máximo de oxigênio em jogadores de Squash e obteve o valor de 66,5 ml/kg/min (±6 ml/kg/min). A freqüência cardíaca dos avaliados foi de 196 batimentos por minuto (± 5 bpm).
    Um outro estudo realizado na Colômbia, Sarmiento, et al. (1997), percebeu que ocorreu um aumento na freqüência cardíaca nos primeiros 10 minutos de partida entre 94 e 100% da freqüência cardíaca máxima calculada para a idade em homens e mulheres respectivamente. Já a freqüência cardíaca média de jogo ficou em 87% da freqüência cardíaca máxima para a idade.

6.2. Lactato sanguíneo como instrumento de avaliação, prescrição e controle de treinamento
Além da importância de sua utilização como instrumento de pesquisa em fisiologia do exercício, a dosagem de lactato sanguíneo tem sido bastante eficaz no controle de algumas variáveis do treinamento. A utilização da resposta do lactato sanguíneo ao exercício tem sido considerada melhor do que a freqüência cardíaca ou até mesmo do VO2máx. Uma avaliação feita por meio de dosagem de lactato nos permite avaliar a capacidade do sistema anaeróbio alático, aeróbio e anaeróbio lático, e até mesmo prescrever treinamento específicos e individualizados e controlar os períodos de recuperação a determinados estímulos de treinamento com base no limiar anaeróbio (SIMÕES, 1998).

CAPÍTULO VII. ANÁLISE BIOMECÂNICA DOS GESTOS MOTORES

7.1. Aspectos musculares no treinamento de Squash
    Os músculos e a gravidade são os principais produtores do movimento humano. Na prática do Squash, os músculos são usados para manter uma posição, levantar ou abaixar uma parte do corpo, desacelerar um movimento rápido e gerar grande velocidade no corpo ou em uma bolinha que estará sendo rebatida. Porém, no decorrer das partidas, após diversas contrações rápidas e vigorosas, cansam-se rapidamente e requerem repouso após períodos de atividade mesmo breves.
    A tensão desenvolvida pelos músculos aplica compreensão nas articulações aumentando sua estabilidade. Contudo, em algumas posições articulares, a tensão gerada pelos músculos pode agir tracionando os segmentos de forma a separá-los criando instabilidade (HAMILL,1999).
    Os músculos são usados assimetricamente na maioria das atividades quando um lado do corpo utiliza músculos diferentes ou opostos. Isso é válido para esportes como o Squash.

7.2. Centro de gravidade no corpo humano

    Quando todos os segmentos do corpo estão combinados e o corpo é dado como um único sólido objeto na posição anatômica, o centro de gravidade fica aproximadamente anterior à segunda vértebra sacral. A posição precisa do CG para uma pessoa depende de suas proporções e tem a magnitude igual ao peso da mesma. Para a manutenção do equilíbrio do corpo humano, a linha de gravidade deve estar, sempre, em cima da base de suporte (que no corpo humano são os pés) (CAMPOS,2002).
   Dado que a linha de gravidade deve cair sobre a base de suporte para estabilidade, dois fatores adicionais afetam a estabilidade do corpo:
    O tamanho da base de suporte de um objeto.
    A proximidade do CG da base de suporte.

7.3. Classificação muscular quanto ao tipo de fibra

    Cada músculo contém uma combinação de diferentes tipos de fibras, classificadas como fibras de contração rápida ou lenta. Os tipos de fibras constituem uma variável muito importante no treinamento do Squash porque é uma consideração fundamental na área do metabolismo muscular e consumo de energia (HAMILL,1999). Vejamos a seguir resumidamente a classificação das fibras musculares.
    Fibras de contração lenta ou tipo I: São encontradas em maior quantidades nos músculos posturais do corpo, como os músculos da parte superior das costas e o sóleo. As fibras são vermelhas devido ao alto conteúdo de mioglobina no músculo.
    Fibras de contração rápida: São divididas em: tipo "IIa", oxidativas-glicolíticas, e tipo "IIb", glicolíticas. O tipo "IIa" é uma fibra de contração rápida intermediária porque não sustentar atividades por longos períodos ou pode contrair-se com um disparo de força e então se fadigar. A fibra tipo "IIb", proporcionará rápida produção de força e irá fadigar rapidamente.

7.4. Características funcionais do músculo
    O músculo esquelético é muito resistente e pode ser alongado ou encurtado em velocidades bastante altas sem que ocorram grandes danos ao tecido. O desempenho da fibra muscular em situações de velocidade e carga variáveis é determinado por quatro propriedades do tecido muscular esquelético: irritabilidade, contratilidade, extensibilidade e elasticidade

7.5. Ações musculares durante o jogo
    Durante o treinamento de Squash, podemos identificar as três ações musculares (ação muscular isométrica, ação muscular concêntrica e ação muscular excêntrica). Durante a posição inicial ou retomada desta ao longo da partida, há uma tensão muscular para manter e ou controlar a flexão / extensão do quadril e dos joelhos. Se o músculo está ativo e desenvolve tensão, porém sem mudança visível ou externa na posição articular, a ação muscular é denominada isométrica. Para curva-se 30 graus de flexão de tronco e manter a posição, a ação muscular usada pode ser chamada de isométrica, já que não ocorre movimento. Os músculos que se contraem isométricamente para manter o tronco flexionado são os músculos das costas, que estão resistindo à gravidade que quer fletir ainda mais o tronco (HAMILL,1999 ; CAMPOS, 2002).
   Se um músculo gera tensão ativamente com um encurtamento visível na extensão do músculo, a ação muscular é denominada concêntrica. O movimento de rebatida contra a bolinha durante o jogo é o melhor exemplo de contração concêntrica. A flexão do braço ou do antebraço quando se está de pé será produzida pela ação muscular concêntrica dos agonistas respectivos ou músculos flexores. Adicionalmente, para iniciar um movimento do braço cruzando o corpo em uma adução horizontal, os adutores horizontais iniciarão o movimento por uma ação muscular concêntrica (HAMILL,1999).
   O grande exemplo de contração excêntrica na prática do Squash é o agachamento para rebater as bolas na "paralela" e o avanço para rebater as bolas mais rápidas na frente da quadra. Quando um músculo é sujeito a um torque externo maior que o interno dentro do músculo, ocorre alongamento do músculo, e a ação é chamada de excêntrica. Essa é a principal contração desenvolvida no treinamento de Squash. Tanto no agachamento como no avanço, há uma flexão de quadril e de joelho, isto requer um movimento excêntrico controlado pelos extensores de quadril e joelho. No entanto, os movimentos reversos de extensão de coxa e perna contra a gravidade devem ser produzidos concentricamente pelos extensores (HAMILL,1999 ; CAMPOS, 2002).

VIII. MÉTODO
8.1. Amostra
    Participaram deste estudo 16 jogadores de Squash profissional do sexo masculino que competem no denominado "Circuito Mundial de Squash". A idade média destes profissionais é de 27,7 (±3,45) anos, com altura de 181 (±5,09) cm e peso de 76,11 (±4,67) kg. Todos os atletas estão a pelo menos 4 anos no circuito profissional e 56,25% estão entre os 10 primeiros do ranking mundial.

8.2. Material
    Os materiais utilizados neste estudo foram 10 vídeos com os formatos "windows media" e "real vídeo". Todos os jogos foram analisados em um computador "Pentium 4 com windows XP". O cronômetro utilizado para marcar os tempos foi o Cronômetro "C510 - Oregon Scientific". Para a coleta de dados, foi utilizada uma tabela onde continham todos os dados a serem analisados (ver em anexo). Para a análise dos dados obtidos foi usada uma calculadora "Casio - fx-570s".

8.3. Procedimento
    Através da análise de vídeos, os dados coletados com o cronômetro foram os seguintes: Tempo total de jogo, tempo total por game, tempo total de "rallys", tempo total de pausas entre os pontos, tempo médio de bola em jogo, tempo médio de bola parada e % do metabolismo anaeróbio alático, anaeróbio lático e movimentações em quadra. A cada disputa de bola, o cronômetro era acionado e após o seu término ele era parcialmente parado. Automaticamente este marcava novamente o momento em que a bolinha voltava em jogo e assim era obtido o tempo de pausa entre os "rallys". Após o final de cada partida, foi somado todos os tempos de "bola em jogo" e também de "bola parada". A finalidade deste procedimento era descobrir o tempo total de bola em jogo e o tempo total de bola parada. Para descobrir a média de "bola em jogo" e de "bola parada" dividia-se o tempo total pelo número de "rallys" ou de bolas paradas que aconteceram durante o game em questão. Para estipular os valores do sistema anaeróbio lático e anaeróbio alático, os tempos foram divididos em anaeróbio alático até 15 segundos, e anaeróbio lático entre 15 e 180 segundos. Simôes et al. (1998). A partir deste processo foi possível identificar a porcentagem dos sistemas energéticos e calcular a média de cada sistema. Em seguida foram marcados o número de movimentações totais (ida até a bolinha e rebater e voltar à posição inicial) e o tempo que o atleta levava para realizar tal procedimento em três pontos básicos da quadra (frente de quadra, lateral e fundo de quadra).

8.4. Análise estatística
Os dados coletados neste estudo foram os seguintes: média, desvio padrão e mediana. Foi tomada como referência, a autora Caldeira, (1997). Todos os dados foram calculados no "Microsoft excel" e em uma calculadora "Casio - fx-570s".

IX. RESULTADOS E DISCUSSÃO
9.1. Resultados

TABELA 1. Número de games jogados.Tempo total do jogo e tempo por game (minutos)
Tempo total de rallys e tempo total de pausas (minutos)
Foram calculados média, mediana e desvio padrão ( )

 

Número de games jogados

Tempo total de jogo

Tempo por
game

Tempo total de rallys

Tempo total de pausas

Média

4 (±0,81)

63,17 (±17,19)

16,33 (±3,38)

36,24 (±11,27)

27,09 (±8,13)

Mediana

4

59,37

17,06

32,94

27,25





TABELA 2. Tempo médio de bola em jogo e tempo médio de bola parada (segundos)
Anaeróbio alático e anaeróbio lático (%)
Foram calculados média, mediana e desvio padrão ( )

 

Tempo médio de bola em jogo

Tempo médio de bola parada

Média

18,23 (±4,27)

13,48(±1,48)

Mediana

17,54

13,04

TABELA 3. Deslocamentos (segundos)Foram calculados média, mediana e desvio padrão ( )
Movimentações (ida e volta à posição inicial)

 

Movimentações
por game

Deslocamento para
frente

Deslocamento
lateral

Deslocamento para o fundo

Média

379,0 (±86,56)

2,58 (±0,06)

2,49 (±0,09)

3,21 (±0,13)

Mediana

349,5

2,57

2,49

3,2


9.2. Discussão

    Com base nos resultados obtidos durante a análise dos jogos, o Squash é uma modalidade em que cada jogo do circuito mundial tem a duração média de 63,17 (±17,19) minutos. Cada game disputado leva em torno de 16,33 (±3,38) minutos para ser finalizado. A divisão de tempo total de bola jogado e tempo total de bola parada ficou assim: 36,24 (±11,27) minutos de bola "correndo" e 27,09 (±8,13) de bola parada.
    Com relação ao tempo médio de bola em jogo e ao tempo médio de bola parada, os resultados obtidos refletem aquilo que diz a literatura. Vejamos então: A geração energética nos primeiros 15 segundos de trabalho muscular é denominada "fase alática da obtenção anaeróbica de energia" (Hecht, 1972 citado por Weineck, 1999). Comparando com os resultados obtidos quanto ao tempo médio de bola em jogo (18,23 (±4,27)) e ao tempo médio de bola parada (13,48(±1,48)) podemos concluir que os dados coletados estão dentro dos valores esperados. Denadai, (1995) diz que existe um aumento exponencial da concentração de lactato no sangue após valores de 50 - 70% do VO2máx. Com base nessa afirmação e com os resultados coletados por Sarmiento, (1997) aonde a frequência cardíaca alcançou valores entre 94 e 100% da FC máxima dos indivíduos e por Gibson, (1999) aonde o consumo de oxigênio foi elevado (66,5 ml/kg/min (±6 ml/kg/min)), podemos concluir que os pontos em disputa 18,23 (±4,27) segundos, são jogados dentro do chamado "sistema anaeróbio lático" 66,86(±9,98)%.
    Com relação aos deslocamentos estudados através da análise de vídeos, as capacidades físicas mencionadas neste trabalho estão de acordo com os resultados obtidos. O Squash como desporto complexo, além de exigir um grau elevado de coordenação motora, requer também mobilidade, força de resistência, força reativa, força de lançamento, força de aceleração e força de desaceleração. O tempo médio de movimentação (ida e volta à posição inicial) foi de 379,0 (±86,56) por game disputado. Essas movimentações foram divididas em três deslocamentos básicos: frente, lateral e fundo. Pelos tempos conseguidos: (2,58 (±0,06) segundos - frente), (2,49 (±0,09) segundos - lateral) e (3,21 (±0,13) segundos - fundo) essas movimentações são realizadas em alta velocidade e com inúmeras repetições durante a partida.

X. CONCLUSÃO
    Com base nos resultados obtidos, podemos concluir que o Squash como modalidade esportiva é classificado como Desporto Complexo e apresenta como característica as capacidades físicas a seguir:
Coordenação;
Mobilidade;
Força de resistência;
Força reativa;
Força de lançamento;
Força de aceleração / desaceleração
Com relação ao sistema energético predominante na modalidade, o Squash pode ser possivelmente classificado em anaeróbio lático, Isso baseado no fato de ser uma modalidade de alta intensidade (FC média: 87% e picos de 94 a 100% da FC max.) e de curta duração (18,23 (±4,27) segundos). Também foram encontrados altos valores de consumo de oxigênio (VO2máx: g/min (±6 ml/kg/min)) indicando uma potência aeróbia elevada. Contudo, alguns testes como a coleta de lactato poderia ser realizada para avaliar a quantidade e a velocidade de remoção deste e assim contribuir para avaliações mais precisas.


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